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CONSEGUIMOS!

Conseguimos! Sim, conseguimos! Depois de 18 anos a existir - de forma exuberante mas “orgulhosamente ilegais” - comemoramos pela primeira vez o nosso aniversário no lado de dentro da lei. Celebramos 19 anos de (r)existência e 1 ano de legalidade. Em Agosto de 2025 assinámos finalmente com a Câmara de Lisboa, e por 10 anos, um contrato de cedência de todo o edifício, incluindo a esplanada da nossa tenda.
 

Pela primeira vez, no nosso aniversário, não precisamos de escrever mais um Manifesto a mostrar à CML que as centenas de concertos, as dezenas de exposições e de conferências realizadas ao longo do ano justificavam amplamente o nosso reconhecimento como um equipamento cultural da cidade. Esse combate cumpriu-se com o contrato de cedência assinado. Já não é necessário apelar a toda a cidade que continue a assistir aos nossos concertos, a participar nas nossas conferências ou a colaborar nas nossas Feiras Culturais. Já não temos que provar o direito de habitar a antiga Fábrica de armas transformando-a num Centro Cultural independente.

 

Agora trata-se de ampliar todo o nosso historial nos domínios da música, das artes plásticas, da literatura e do pensamento. É nesse sentido que vamos reconstruir a nossa escola de música, agora dirigida pela cantora Maria João, incluir na programação de concertos cada vez mais novos compositores, intensificar a agenda de filosofia política no ciclo de conferências sobre o pensamento contemporâneo.


E para vincar o carácter festivo do nosso primeiro aniversário dentro da lei lançamos uma coleção de vinhos , em parceria com uma Adega do Dão, como homenagem a cinco pensadores da Grécia Clássica. Essa coleção exclusiva pode ser bebida na Fábrica ou guardada nas caves dos nossos amigos que sempre lamentaram não poderem levar para casa um pedaço desta aventura colectiva.

 

Nuno Nabais

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Suplemento sobre a história da Fábrica Braço de Prata

por Nuno Nabais

 

A Fábrica do Braço de Prata em 3 histórias

Quando, em Junho de 2007, criei o Centro Cultural Independente que adotou o nome do edifício onde estava instalado - Fábrica do Braço de Prata - Marvila era sobretudo um conjunto de ruínas industriais. Os antigos armazéns de vinho do largo do Poço do Bispo estavam abandonados, depois de terem sido usados como palcos de grandes eventos durante a Expo 98, o edifício da Tabaqueira parecia ter sido bombardeado, e um imenso lago tinha surgido nas fundações do futuro condomínio de luxo projetado pelo Arquiteto Renzo Piano, depois de as obras terem sido embargadas em 2002 pela CML. A frente ribeirinha entre o parque de contentores e o Parque das Nações era um mar de lama. Do lado da Rua do Açúcar o único sinal de vida era o Teatro Meridional e uma grande loja de móveis antigos da China, com o Palácio da Mitra sempre fechado. Numa palavra: estabelecer um contrato de comodato com a empresa Obriverca, proprietária do edifício de administração da antiga Fábrica do Braço de Prata, para instalar nesse edifício um Centro Cultural Independente, era pura loucura. Quem viria até este Centro Cultural assistir a um concerto, visitar uma exposição, consultar a nossa livraria, servir-se do nosso restaurante ou dos nossos bares, quando Marvila estava longe de tudo, sem transportes noturnos, e sem qualquer outro foco de interesse para além do próprio Centro Cultural Fábrica do Braço de Prata?

Sobretudo como resultado da curiosidade manifestada pela comunicação social acerca de uma tal ousadia, com televisões e jornais a fazerem reportagens entusiásticas sobre a nova vida noturna em Marvila, o Bairro Alto mudou-se inteiro para a Fábrica do Braço de Prata. A partir de Janeiro de 2008, às sextas e sábados, fazíamos bilheteiras de mais de mil entradas.

Com essa invasão de pessoas de todas as idades e de todos os estilos de vida, vieram muitos antigos trabalhadores da Fábrica e, com eles, dezenas de histórias que tinham urgência em contar. Como se, com a transformação de uma fábrica de armas numa enorme livraria e salas de concertos, as memórias dos anos cinzentos de metal e fumo exigissem alguém que as registasse num qualquer arquivo poético, real ou simplesmente virtual. Assim, vi-me transformado num quase “confessionário” permanente onde, todas as noites, duas a três pessoas se sentavam, à vez, à minha mesa do bar para me revelarem episódios passados numa fábrica que chegou a acolher 12.000 operários nas décadas de 60 e 70 e que, bruscamente, tinha desaparecido na voracidade dos investimentos imobiliários à boleia da Expo98 e do Parque das Nações. Porque, dessa imensa estrutura industrial tinha sobrado apenas o edifício da antiga administração, que eu tinha convertido em salas de livros, exposições e concertos, eu era visto sob a aura do arquivista, do guardador de memórias, com a missão de salvar do vazio aquele universo, criado em 1903, e condenado à implosão em 1995.

Dessas histórias guardo sobretudo duas. E conservo com especial carinho uma terceira que me foi contada bem mais tarde.

 

1.    Nestas paredes escorre sangue.

Um antigo operário, com os seus 70 anos, sentou-se à minha mesa numa noite de Novembro de 2007, com ar zangado. Perguntou-me que “pouca vergonha” era aquela de usar as salas da antiga administração da Fábrica para fazer concertos e servir cervejas. Eu procurei explicar que era uma forma de impedir a degradação do edifício, que estava abandonado desde 2002, quando a Obriverca - a empresa imobiliária que comprara a antiga Fábrica, para aqui construir um condomínio de luxo – tinha visto a sua obra embargada pela CML. Ele compreendeu a minha preocupação com a salvaguarda do edifício mas contestou a forma que eu tinha escolhido. Segundo ele, o edifício deveria estar selado porque, como ele disse, “nestas paredes escorre sangue”. Explicou-me então que vários colegas dele, nos anos 60 e início dos anos 70, tinham sido levados pela PIDE, acusados de tentativas de sabotagem de armamento, tendo como fundamento apenas denúncias de chefes de oficina que os tinham escutado a fazer críticas ao regime. E, esses trabalhadores, segundo ele, não eram enviados para qualquer prisão política, nem mesmo para o Tarrafal, mas, simplesmente, desapareciam. Em memória dessas vítimas do fascismo, o edifício deveria ser conservado como um mausoléu. Comprometi-me então a dedicar uma das nossas salas à criação de um museu da Fábrica, onde fossem honrados esses trabalhadores assassinados. Ainda hoje continuo a trabalhar nesse projeto.

 

2.    25 de Abril de 1974.

Em Janeiro ou Fevereiro de 2008 sentou-se ao meu lado um antigo oficial do exército. Contou-me que tinha sido ele o “Oficial de Dia” da Fábrica do Braço de Prata no dia 25 de Abril de 1974. E a história que me contou revela um aspeto fundamental da “Revolução dos Cravos”: o facto de não ter implicado derramamento de sangue entre as forças oponentes.

Eis a história. A partir das 8h da manhã do dia 25 de Abril, o então Oficial de Dia toma conhecimento da existência de um movimento de carros de combate provenientes Santarém que se dirigem a Lisboa para ocuparem os Ministérios no Terreiro do Paço. Ao mesmo tempo, centenas de populares tentam forçar os portões da Fábrica do Braço de Prata a exigirem o direito de se apoderarem das metralhadoras aqui fabricadas para se juntarem ao movimento das forças revoltosas. Enquanto Oficial de Dia ele pede para ser recebido pelo responsável máximo da Fábrica, um Coronel, que se barricara no seu escritório do último piso do edifício da administração, e que, enquanto alimentava chamadas telefónicas com altos cargos do Governo, se recusava a responder à pergunta quanto o que fazer com os populares que ameaçavam arrombar os portões e saquear os depósitos de armas. Como não houvesse resposta do Coronel, e porque os portões estavam em risco de ceder, o Oficial de Dia dá então instruções aos seus soldados para abrirem os portões e entregarem todas as armas aos populares, mas sem as respetivas munições. Dezenas de pessoas receberam em euforia dezenas das famosas G3 e precipitaram-se para o Terreiro do Paço, ignorando que não poderiam disparar um único tiro. 

 

3.    Esta bomba nunca rebentará

Em Março de 2014 recebi na Fábrica do Braço de Prata a visita da jornalista Pilar del Rio, viúva do escritor, e prémio Nobel, José Saramago. Pilar del Rio anunciou-me que iria ser editado, em forma inacabada, o romance que Saramago estava a escrever em 2010 quando morreu. E porque o enredo do romance girava em torno de uma fábrica de armas, a Belona, havendo no próprio texto várias referências à Fábrica do Braço de Prata, Pilar del Rio gostaria que a cerimónia de lançamento fosse realizada na própria Fábrica do Braço de Prata – precisamente por ser uma antiga fábrica de armas transformada numa livraria e salas de concertos. Fiquei feliz com essa proposta. Para além da minha enorme admiração por José Saramago, acolher aqui o lançamento da sua obra póstuma em forma de Manifesto contra todas as fábricas de armas, representava a confirmação do sentido da minha aventura na Fábrica do Braço de Prata. Tive mais alguns encontros com Pilar del Rio para preparar a cerimónia e neles ela contou algumas histórias sobre a relação de José Saramago com a Fábrica do Braço de Prata. Fiquei a saber que o escritor tinha estudado na Escola Técnica Afonso Domingues, em Marvila, onde se formou em Metalomecânica. O sonho dele, como o de todos os alunos formados nessa Escola, era vir a trabalhar na Fábrica do Braço de Prata. Mas, para sua grande tristeza, só alguns dos seus colegas foram admitidos. José Saramago acabou por ir trabalhar como técnico para uma tipografia no Beato. Mas, segundo Pilar del Rio, com muita frequência vinha esperar pelos seus antigos colegas à saída da Fábrica do Braço de Prata. 

Essa admiração pela Fábrica onde não conseguiu ser admitido está presente no enredo central do romance Alabardas. Como o próprio Saramago conta em uma das páginas do diário que ele foi redigindo em paralelo com a escrita do romance, e que Pilar del Rio publica em anexo na edição de Alabardas, a ideia inicial do romance foi a memória de uma história que lhe havia sido contada por um velho republicano espanhol, que havia participado na luta contra os franquistas na guerra civil. O velho republicano contara a Saramago que, num certo momento de combates entre trincheiras, uma bomba tinha sido lançada por um avião sobre a frente republicana. Mas a bomba não explodira. Quando os sapadores republicanos desarmaram a bomba encontraram no seu interior um pedaço de papel com a seguinte mensagem escrita em português “ESTA BOMBA NUNCA REBENTARÁ!” Para Saramago esse facto só podia significar que algum operário, na Fábrica de armas portuguesa que fornecia o armamento ao exército de Franco, tinha conseguido sabotar algumas bombas como solidariedade com o exército republicano. Daí Saramago perguntar várias vezes nas páginas dos três capítulos que escreveu antes de morrer: como explicar que nunca tenham existido greves entre operários de fábricas de armamento? Como explicar que não tenhamos notícias de atos de sabotagem na indústria da guerra? 

A cerimónia de lançamento foi no início de Outubro de 2014. Foi na Sala principal da nossa livraria que, desde esse dia, passou a chamar-se “Sala Saramago”. Estiveram presentes, para além de Pilar del Rio, o escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera, o escritor italiano Roberto Saviano e o famoso juíz espanhol Baltazar Garçón. O livro foi apresentado pelo Professor Eduardo Lourenço. 

Enquanto escutava o Professor Eduardo Lourenço recapitular alguns momentos da biografia de Saramago, com o livro Alabardas na mão, não pude deixar de sentir que, naquele momento, finalmente, José Saramago era “admitido” na Fábrica do Braço de Prata.

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